24 de jun de 2011

A Flauta no Choro

"As flautas têm acompanhado o homem desde o princípio de sua história. Feito de ossos, madeiras, metais, todos os povos têm se comunicado através deste que é, no dizer do compositor francês André Jolivet, o instrumento musical por excelência, pois é animado pelo sopro, emanação profunda do homem, e carrega em seus sons aquilo que nos é, ao mesmo tempo, visceral e cósmico." 
 
(Toninho Carrasqueira)
 


Também os homens do continente americano vêm, ao longo dos tempos, se expressando ao som de suas Quenas, Sampoñas, Pífanos de bambu, Ocarinas de argila, bem como de suas modernas flautas de ouro e prata, que são herdeiras, descendentes de todas as primeiras flautas. Seu universo cultural, extremamente rico, é, na imagem do prof. Alfredo Bosi, "um coro onde as vozes da Europa, da África e da Ásia se fundem, ora harmônica, ora estridentemente, com os cantos, ainda não abafados dos povos pré-colombianos". O vigor de sua arte impressiona a todos os que têm o privilégio de com ela travar conhecimento.

As flautas estão presentes desde tempos imemoriais em praticamente todas as culturas do planeta, incluindo as dos diferentes povos indígenas, africanos e europeus, matrizes recentes do atual povo brasileiro. Diferentes mitologias se referem a deuses flautistas, Pan, Krishna, Kokopeli… divindades sedutoras, que têm o dom de transportar as almas com o som de suas flautas.

No Brasil... terra boa e gostosa ... terra de grandes músicos, e de excelentes flautistas, de norte ao sul do país, vemos virtuoses, seresteiros, chorões, "jazzistas", "concertistas", roqueiros, sambistas, mestres e aprendizes desse instrumento presente, desde os mais remotos de nossa história, na música de nossa gente. Muitos desses artistas permanecem desconhecidos do grande público, outros têm condições de aparecer mais e mostrar sua arte, mas o fato é que sempre houve grandes flautistas e, sobretudo, muito atuantes na história da música brasileira.

Joaquim Callado, Viriato Figueira, Mathieu André Reichert, Pattápio Silva, Pedro de Assis, Duque Estrada Meyer, Pixinguinha, Agenor Bens, Ary Ferreira, Benedito Lacerda, Vicente de Lima, Moacir Licerra, Lenir Siqueira, Alferio Mignone, João Dias Carrasqueira, Manezinho da Flauta, Bide, Dante Santoro, Eugênio Martins, Copinha, Carlos Poyares, Luiz Fernando Sieciechowicz - o “China” -, Simone Castrillon, entre os que que já se foram, e Andrea, Beth e Odette Ernest Dias, Altamiro Carrilho, Hermeto Pascoal, Celso Woltzenlogel, Rogério Wolf, Lucas Robatto, Marcelo Bonfim, Renato Axelrud, Ricardo Kanji, Marcelo Barboza, Maurício Freire, Toninho Guimarães, Artur Andrés, Artur Elias, Beatriz Magalhães, Edson Beltrame, Heriberto Porto, Cassia Carrascoza, Fernando Pacífico, Daniel Allain, Franklin da Flauta, Marcelo Bernardes, Mauro Senise, Ariadne Paixão, Mauro Rodrigues, Marcos Kiehl, Dirceu Leite, Léa Freire, Norton Morozowicz, Teco Cardoso, Tota Portela, Sérgio Barrenechea,Nivaldo de Souza, Alexandre Johnson, Eduardo Neves, Laura Rónai, Tyrone Mandelli e Rodrigo Y Castro, entre outros bons, são algumas das estrelas desta verdadeira constelação.
 
Pode-se dizer que a história moderna da flauta brasileira, começa com Joaquim Antônio da Silva Callado Jr. (1848-1880) embora, como já foi dito, já houvesse muitos flautistas antes dele, incluindo-se aí o próprio imperador Pedro de Alcântara, Dom Pedro I. Outro nome importante, foi Matheus André Reichert (1830/1880), flautista belga que chegou ao Brasil em 1859 para integrar o grupo de virtuoses que o Imperador, D. Pedro II, mandou contratar na Europa.

De Callado até hoje, no choro, nas serestas, nas orquestras de cinema, bandas e orquestras sinfônicas, nos grupos de jazz, rock, ao longo dos tempos e nos diferentes estilos, os flautistas vêm participando de forma muito importante da história da música no Brasil.Além dos virtuoses já citados, outros criadores, como Tom Jobim, Tim Maia, Egberto Gismonti, que mesmo sem tê-la como instrumento principal, também gostavam gostam de tocá-la. Fazem parte de uma tradição muito rica, na qual cada flautista tem um som diferente, original, de características próprias, assim como o canto do canarinho é diferente do canto do curió e do sabiá laranjeira….


Callado foi contemporâneo de Mathieu André Reichert, virtuose belga, trazido ao Brasil pelo imperador Pedro II.


Flautista prodigioso, Callado foi o músico mais popular de seu tempo. Criou o conjunto Choro Carioca, o primeiro com a formação instrumental básica do choro: flauta, dois violões e cavaquinho. Começou a estudar música com o pai e aos oito anos de idade teve, durante pouco tempo, aulas de música com Henrique Alves de Mesquita, antes da viagem do maestro à França. Tornou-se profissional desde cedo tocando peças eruditas e músicas dançantes em bailes e festas familiares. Seus companheiros de choro foram Silveira, Viriato Figueira, Luizinho, Juca Valle e outros.

O primeiro sucesso de Callado foi a polca Querida por Todos, dedicada a sua amiga Chiquinha Gonzaga. Em 1873, Callado apresentou pela primeira vez um lundu como peça de concerto, intitulado Lundu Característico. A polca Cruzes, Minha Prima!, publicada em 1875, também foi um de seus grandes sucessos, chegando a ser citada pelo romancista Lima Barreto em Clara dos Anjos: "Os velhos do Rio de Janeiro, ainda hoje se lembram do famoso Callado e das suas polcas, uma das quais, Cruzes, Minha Prima!, é uma lembrança emocionante para os cariocas que estão a roçar pelos setenta". Foi professor de flauta do Imperial Conservatório de Música (cujo prédio hoje abriga o Centro Cultural Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro). Em 1879, recebeu de D. Pedro II a mais alta condecoração do Império: a Ordem da Rosa, como comendador, junto com os demais professores do Conservatório. Em 2002, foi lançada pela gravadora Acari Records uma caixa comemorativa com 5 CDs contendo a obra remanescente de Joaquim Callado (66 músicas), gravada por diversos artistas de choro de todo o Brasil.

A novidade de sua música, que nascia com características brasileiras, traduz uma época, a do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro, pós-guerra do Paraguai, quando o país passava por profundas transformações sociais e a sociedade se amalgamava, reformulava conceitos, criando uma identidade nova e própria.Vários escravos voltaram da frente de batalha como heróis, condecorados pela coroa. Par e passo com seu meio ambiente, com o contexto histórico em que vivia, Callado tornou-se ator dessa história .

Com sua sensibilidade e criatividade contribuiu decisivamente para o nascimento de uma música que traduzisse o gesto, a alma, o jeito daquele povo que nascia. Teve como mestre e contemporâneo, outro grande criador-iniciador desta linguagem musical brasileira, Henrique Alves de Mesquita.

De personalidade cativante, Callado foi um grande virtuose e excelente compositor como atestam suas polcas, valsas e quadrilhas, gravadas nas séries "Princípios do Choro", da gravadora Biscoito Fino, e "Joaquim Callado, o Pai dos Chorões", da Acari Records.

Ambos muito atuantes, foram personagens importantes da sociedade carioca. O "Divino" Reichert, como a ele se refere Pedro de Assis, em seu Manual do Flautista, era considerado o maior flautista do mundo. O compositor Carlos Gomes lhe dedicou um lindíssimo solo que integra a óperaJoanna de Flandres. Reichert chegou a viajar por vários estados brasileiros. Era muito admirado. Odette Ernest Dias gravou um lindo disco dedicado a suas composições e escreveu um belo trabalho sobre Reichert Matheus André Reichert, um flautista belga na corte do Rio de Janeiro.

Considera-se que essas duas grandes figuras – Callado e Reichert -, ambos também compositores, estão na base do que seria uma escola brasileira de flauta, em cujo panteão de mestres irão figurar, mais tarde, Duque Estrada Meyer, Pattápio Silva, Agenor Bens, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Ary Ferreira, Moacir Licerra, João Dias Carrasqueira, Odette Ernest Dias, Copinha, Expedito Vianna, Altamiro e Álvaro Carrilho, entre muitos outros menos conhecidos, mas não menos importantes.

(Trecho do Ensaio de Toninho Carrasqueira elaborado especialmente para o projeto Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia, patrocinado pela Petrobras através da Lei Rouanet

21 de jun de 2011

Sobre o Cavaquinho



   Réplica de um cavaquinho antigo

História do Cavaquinho:

Existe unanimidade entre autores como Oneyda Alvarenga, Mário de Andrade, Renato Almeida e Câmara Cascudo sobre a origem portuguesa do cavaquinho. Afirma Cascudo que de Portugal o instrumento teria sido levado pra a ilha da Madeira e de lá, após absorver algumas modificações, vindo para o Brasil. Na verdade, o cavaquinho chegou não só a ilha da Madeira mas, também, aos Açores, Havaí e Indonésia.

No Havaí, levado pelo madeirense João Fernandes em 1879, foi rebatizado pelos habitantes locais como ukulele (pulga saltadora), caiu no gosto da população e acabou se tornando símbolo da música havaiana. Na Indonésia, ganhou o nome de Kerotijong (ou viola de kerotjong ou ainda ukulele como no Havaí), e paticipa do conjunto que toca o gênero de mesmo nome, bem parecido com o conjunto de choro brasileiro. No livro Instrumentos Populares Portugueses encontramos a seguinte descrição: "O cavaquinho é um cordofone popular de pequenas dimensões, do tipo da viola de tampos chatos - e portanto das família das guitarras européias - caixa de duplo bojo e pequeno enfraque, e de quatro cordas de tripla ou metálicas - conforme os gostos, presas em cima nas cravelhas e embaixo no cavalete colado no meio do bojo inferior do tampo. Além deste nome, encontramos ainda, para o mesmo instrumento ou outros com ele relacionados, as designações de machinho, machim, machete, manchete ou marchete, braguinha ou braguinho, cavaco etc..."

Além das coincidências de formas e afinações do instrumento lá e aqui, vemos ainda que em ambos os casos o cavaquinho está ligado a manifestações populares, festas de rua, etc. Sobre os gêneros que o utilizam em Portugal, encontramos na mesma publicação o seguinte: "Como o instrumento de ritmo e harmonia com seu tom vibrante e saltitante, o cavaquinho é como poucos, próprio pra acompanhar viras, chulas, malhões, canas-verdes, verdegares e prins". Além dos gêneros que o utilizam em Portugal, outro detalhe marca a diferença entre o cavaquinho no Brasil e em Portugal: a maneira de tocar. Enquanto aqui utilizamos a palheta para tanger as cordas, lá são usados os dedos da mão direita, geralmente fazendo rasgueado.
 
No Brasil o cavaquinho desempenha importante função no acompanhamento dos mais variados estilos, desde gêneros musicais urbanos como o samba e o choro, até manifestações folclóricas diversas como folias de reis, bumbas-meu-boi, pastoris, chegança de marujos.

Waldir Azevedo:




Por volta de 1935, começou a se entusiasmar pelos instrumentos de corda, quando ouviu o famoso "moleque Diabo", fuzileiro naval e multi-instrumentista da época, exímio na execução do violão, do banjo, do bandolim e do cavaquinho. A partir dessa época e das façanhas desse endiabrado instrumentista, Waldir Azevedo foi tomando gosto pela música e trocando a flautinha por um violão, assumindo mais tarde, o bandolim, a viola americana de quatro cordas, o banjo e o cavaquinho. Por volta de 1940, improvisou um conjunto Regional e passou a participar de vários programas de calouros existentes na cidade do Rio de Janeiro, atuando com grande êxito em alguns deles. 

Em 1942, ganhou os concursos de calouros da rádio Cruzeiro do Sul, bem como, o da Rádio Guanabara, conseguindo nota máxima executando ao violão o chorinho "Cambucá" de Pascoal de Barros, que gravaria algum tempo mais tarde; e logo passou a integrar a equipe de artistas daquela emissora. Nessa mesma época, trabalhou no Cassino Copacabana e na Rádio Clube do Brasil.Waldir Azevedo acometido de um pequeno problema no coração, atribuído ao excesso de exercícios de ginástica que praticava, decidiu não investir em sua carreira na Aeronáutica, o que estimulou e despertou mais o seu desejo de dedicar-se à música.

Por volta de 1943, torna-se profissional trabalhando no Conjunto Regional de César Moreno, na Rádio Mayrink Veiga, em, função da vaga aberta por Gumercindo Silva (Gugu); este ao ingressar na Orquestra de Dja1nla Ferreira onde era tocador de Cavaquinho e depois passou ao contra-baixo, tocando inclusive, no conjunto do próprio Waldir Azevedo.

Em1945, estava recém-casado com Olinda com quem teve duas filhas e desfrutando de bom emprego- Em um momento em que a música se definia em sua vida como diletantismo, surge a concretização da profissionalização por convite do violonista Dilermando Reis para integrar o conjunto Regional, recentemente formado, que iria atuar na PRA-3, Rádio Clube do .Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, quando aderiu definitivamente ao cavaquinho. O Regional de Dilermando Rei estava encarregado de substituir o Regional de Benedito Lacerda ao acompanhamento de cantores da Rádio Clube do Brasil.

Nos quatro anos seguintes, Waldir Azevedo, participaria com muito destaque neste Regional, sendo que nos dois últimos anos passou a dirigi-lo em substituição a Dilermando Reis. Nesta época, a Rádio Clube do Brasil funcionava no mesmo prédio da Gravadora Continental, oportunidade em que Waldir Azevedo pôde ser ouvido, quando da execução de suas composições, pelo diretor artístico da gravafiora, o famoso e reconhecido compositor João de Barro (Braguinha), partindo daí o convite para gravar seu primeiro disco. Waldir Azevedo, iniciou-se coma compositor de forma inusitada, para contei as lágrimas de um sobrinho que o visitava e desejava ouvir o tio tocar cavaquinho. Foi quando começou a improvisar algumas notas musicais, no único instrumento que estava a mão, um cavaquinho quê possuía, somente a corda ré. E foi brincando nesta cordel que nasciam os primeiros acordes de um dos chorinhos mais famosos de todos os tempos: o "Brasileirinho". Algum tempo mais tarde, ficou pronta a segunda parte do saltitante chorinho "Brasileirinho" que passou a integrar repertório de Waldir Azevedo, sempre com sucesso.

Em 1949, gravaria seu primeiro disco, em 78 r.p.m., na Gravadora Continental, sob o número 16.189189, formado por dois choros de sua autoria "Carioquinha" no lado A e "Brasileirinho" no lado B, que até hoje compõem o repertório básico de qualquer chorão e sempre são lembrados para novas gravações. Este primeiro disco que Waldir Azevedo gravou como solista de cavaquinho, foi lançado em 05 de Maio de 1949. Desde então, o Brasil passou a conviver com dois marcos importantes, sendo em primeiro lugar a extraordinária aceitação do choro "Brasileirinho ", por todo o público do Brasil, como poucas vezes ocorreu na música instrumental de nosso país e em segundo, o cavaquinho ,se apresentando destacadamente com o instrumento solista e não somente como instrumento de acompanhamento, tornando-se assim, um dos instrumentos mais apropriados para refletir o sentimento do Choro, que caracteriza o mais elaborado e refinado momento dai Música Popular Brasileileira. Waldir Azevedo e seu choro "Brasileirinho", conheceram momentos de glória,- este recebeu letra de Pereira da Costa, passou pelas mãos de Carmen Miranda, Percy Faith, Ademilde Fonseca, Orquestra Filarmônica de Boston, Baby Consuelo, entre tantos instrumentistas do Brasil, além de ser trilha sonora para campanha política

Em 1950 e em campanha publicitária para empresa automobilística coreana em 1997. Com este espantoso sucesso seguiram-se um segundo disco com as músicas "Cinco Malucos " e "O que é que há " e terceiro disco com "Quitandinha " e "Vai por mim ". É no quarto disco, lançado em dezembro de 1950, que surgiu outro sucesso impressionante; o baião "Delicado ", de sua autoria no disco da Gravadora Continental sob o número 1 6.314, que vendeu no Brasil mais de 500 mil cópias.

Em 1957, o Baião Delicado se tornou na música brasileira, recorde absoluto em venda e de execuções nas rádios em todo Brasil, tendo recebido várias gravações na Europa e Estados Unidos, passando pelas mãos de Percy Faith, Ray Connjf e tantos outros instrumentistas do Brasil e do mundo. WaldirAzevedo e Jacob do Bandolim, ao longo dos anos 50, estiveram no centro de uma calorosa e agitada discussão no meio musical brasileiro, que tentava eleger o melhor instrumentista do Brasil. Tal fato, não gerou vencedor mas fixou com clareza as diferenças existentes entre ambos e os seus respectivos instrumentos, pois Jacob do Bandolim era solista de um instrumento mais complexo, possuindo quatro cordas duplas, enquanto Waldir Azevedo era solista de um instrumento menos complexo, possuindo quatro cordas simples, o que o conduzia a dar maior velocidade de interpretação às suas composições. WaldirAzevedo a partir dos sucessos de "Brasileirinho " e "Carioquinha " em 1949 e os sucessos de "Cinco Malucos ", "O que é que há", "Quitandinha ", "Vai por Mim ", "Delicado" e "Vê se gostas" em 1950, continuou gravando pela Continental como acompanhante com seu conjunto para outros solistas ou cantores. Mas, em outras oportunidades reeditaria o sucesso alcançado em 1950, gravando sucessos como "Pedacinhos do Céu " e "Camundongo" (1951 ), "Vai Levando" (1952), "Queira-me Bem" (1953) "Amigos do samba " (1955) e "Jogadinho" (1961) entre tantos outros.

Waldir Azevedo durante onze anos percorre com seu cavaquinho a América do Sul e a Europa, incluindo duas excursões patrocinadas pelo ltamarati na chamada Caravana da Música Brasileira, bem como, esteve no Oriente Médio com Poly, o multi-instrumentista das cordas, e participou de programa na BBC de Londres-Inglaterra, transmitido para 52 países. Em suas viagens por quase todo o mundo, encantou com seu talento na execução do cavaquinho, e sempre tinha que explicar sobre a sua "pequena guitarra".

Sempre com paciência e bom humor as explicações ocorriam de forma a esclarecer de que não se tratava de uma pequena guitarra, pois, a forma de afinação era diferente e que além dos solos que executava, também era importante para o acompanhamento. Assim, podemos constatar que Waldir Azevedo com seu cavaquinho divulgou diante das mais diferentes platéias não só a sua arte maravilhosa, mas também o choro, nossa primeira expressão musical instrumental genuinamente brasileira.  

20 de jun de 2011

Sobre o Violão de 7 cordas


Dino 7 cordas
(Horondino José da Silva)


O violão de 7 cordas nasceu, com alguma certeza, na Rússia do século XIX a partir da kobza, instrumento típico do Leste Europeu, muito semelhante ao alaúde barroco e a mandora germânica. Todos estes, na verdade, pertencem a uma complexa família de instrumentos de corda mediavais e renascentistas com origens na Pérsia, na África e na Índia.

Atribui-se ao lituano Andrei Sychra (177?-1850) a "invenção" do violão de 7 cordas. De fato, Sychra escreveu inúmeras peças para o instrumento que se tornou mais popular na Rússia que o violão de 6 cordas usado na Espanha. Ao migrarem para outros países por motivos diversos, os lituanos saudosos de sua terra transformavam os violões de seis cordas, mais comuns pela Europa e em outros países do mundo àquela época, adicionando improvisadamente uma corda adicional para, assim, poderem tocar suas canções prediletas da maneira original que as conheciam. A afinação do 7 cordas pelos russos era um acorde de sol maior aberto (DGBDGBD), proporcionando uma sonoridade característica e facilitando a formação de acordes para o acompanhamento de canções e a utilização de linhas de contra-baixo simples, alternando-se entre as cordas. O violonista francês Napoleon Coste (1805-1883) compôs várias peças para o violão de 7 cordas.

O Brasil, apesar de ser a segunda pátria do violão 7 cordas, sem dúvida, foi a terra mais fértil onde floresceu este instrumento. Relata-se que os responsáveis pela sua chegada em nosso país foram ciganos russos que viveram no bairro do Catumbi, Rio de Janeiro, em meados do século XIX. Da convivência entre os ciganos e os músicos e construtores cariocas, nasceu o violão de 7 cordas brasileiro. Entretanto, é certo que a adaptação do instrumento ao universo do choro e do samba deu-se a partir do início do século XX. O violonista China, irmão de Pixinguinha, aparece em uma fotografia de 1910 empunhando um violão de 7 cordas. O papel de Tute, violonista membro do grupo de Pixinguinha e Benedito Lacerda, é tido como o mais relevante na introdução do instrumento nos estilos brasileiros.

O fenômeno Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas, foi de longe o violonista mais importante para o desenvolvimento das típicas linhas melódicas dos baixos, as chamadas "baixarias", que se tornaram a marca principal do instrumento quando executado entre os "chorões". Dino dizia que "achava lindo o Tute tocando aquele violão, mas não queria que ele pensasse que eu o estava imitando, então só comecei a tocar sete cordas depois que ele morreu". Estudiosos sugerem que "Dino criou a linguagem brasileira do violão 7 cordas enquanto tocava com o duo de flauta de Benedito Lacerda e Pixinguinha em seu sax tenor que fazia maravilhosos contrapontos graves durante as apresentações" (Mauricio Carrilho; Luiz Otávio Braga).

No Brasil as afinações mais comuns para o 7 cordas são BEADGBE, DEADGBE e, principalmente, CEADGBE. Luiz Otávio Braga inovou ao usar pela primeira vez cordas de náilon no sete cordas, quando entrou para a Camerata Carioca de Radamés Gnattali, em 1983. Instrumentistas como Raphael Rabello, Mauricio Carrilho, e Yamandú Costa contribuiram pela universalização do instrumento, utilizando-o em peças dos mais variados estilos, cada um deixando sua marca individual neste instrumento maravilhoso. 
 
A seguir um vídeo do regional Época de Ouro com a presença de Dino 7 cordas:
 
 


 

19 de jun de 2011

Sobre o Choro e os Chorões¹:


Uma das primeiras formações do Regional Benedito Lacerda: Popeye (pandeiro), Dino 7 Cordas, Benedito Lacerda (flauta), Canhoto (cavaquinho) e Meira (violão).

Definido por Heitor Villa-Lobos como a essência musical da alma brasileira, o choro, ao mesmo tempo gênero musical e forma de tocar, representa o próprio Brasil em toda sua diversidade e virtuosidade. O choro surgiu no final do século XIX como uma das conseqüências artísticas de uma série de fatos importantes.
Segundo TINHORÃO (1991) e CAZES (1998), a abertura dos portos, no início do século XIX, permitiu o acesso da cultura européia, às orquestras, instrumentos e partituras, bem como às danças de salão, que passaram a ser mais intensas. Por outro lado, das práticas musicais que se consolidaram ao longo do século XVIII e XIX, registra-se o chamado “trio de pau e corda” (cavaquinho, violão e flauta, que na época era de madeira de ébano). Desta formação surgiu o choro que, inicialmente, designava essa própria configuração instrumental.
CAZES (1998) afirma que o choro é uma adaptação da polca. O autor aponta, inclusive, uma data para o início de sua história, julho de 1845, quando a polca foi dançada pela primeira vez, no Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro. Essa referida data remonta à chegada da polca, que veio da Europa para o Brasil, onde exerceu influência marcante na formação de outros gêneros:

“Assim, se observamos o maxixe brasileiro, a beguine da Martinica, o danzón de Santiago de Cuba e o ragtime norte-americano, vemos que todos são adaptações da polca. A diferença de resultado se deve ao sotaque inerente à música de cada colonizador (português, espanhol, francês e inglês) e, em alguns casos, a uma maior influência da música religiosa. A região da África de onde vinham os escravos também influiu, pois foram trazidas diferentes tradições musicais e religiosas por negros de tribos distintas.” (CAZES, 1998, p. 15)

O referido gênero, ademais, também mistura outras danças de salão européias como valsas e maxixes, além da forte influência dos batuques africanos dos negros escravizados. O músico brasileiro copiava a dança de salão com um sotaque mulato, influência dos batuques, e começava a tocar a música européia com um balanço diferente.

“Ao interpretar de maneira própria este repertório de música ligeira, também sob a influência do lundu e da modinha, os músicos cariocas começam a criar o choro. Em um primeiro momento, o termo serve para designar o “sotaque” carioca emprestado ao repertório de danças européias, referindo-se, ao mesmo tempo, à formação instrumental que tinha por base os violões, o cavaquinho e, comumente, uma flauta ou outro instrumento de sopro solista. Em pouco tempo, o choro constituiu um gênero próprio, porém sempre mutante e apto a incorporar as influências mais diversas, uma vez que carrega, em si, o caráter de ‘maneira’ de tocar” (CAZES, 1999, p.21).

Dentre os principais nomes da história do choro, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth ocupam lugar importante: foram compositores pianistas contemporâneos do momento inicial do gênero, formando, assim, a chamada primeira geração do choro. Também foram responsáveis pela sua fixação enquanto gênero, pois ambos compuseram peças escritas para piano que tem importante papel na música brasileira, desde que se tornaram famosas, à época, aos dias de hoje, tais como Atraente, Corta-Jaca, Apanhei-te Cavaquinho, Brejeiro e Odeon.
Outros compositores tornaram-se grandes referências da época de ouro do choro, dentre eles Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Garoto, Zequinha de Abreu, e o célebre Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha. Este último foi figura chave na dimensão dos arranjos para choro, e também por estruturar a linguagem harmônica, os fraseados, contrapontos e, sobretudo, da forma no choro que até hoje o caracterizam e definem como gênero musica.  
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¹Parte do Quadro Teórico do Projeto de Pesquisa intitulado  "O CHORO NA CIDADE DE FORTALEZA/CE: HABITUS E FORMAÇÃO MUSICAL DOS FLAUTISTAS CHORÕES" do músico, professor e pesquisador Patrick Mesquita.

 











16 de jun de 2011


É com grande satisfação que o regional Quinteto Maturi apresenta o projeto intitulado "Chorinho na Escola". Um recital didático que leva música para as Escolas Municipais de Fortaleza. E não é qualquer música! Estamos falando do Choro, um gênero musical com mais de 150 anos de existência, portanto, a mais bela herança da nossa música popular brasileira! 

A apreciação musical pode despertar nos jovens o interesse em continuar a estudar música, em ouvir de maneira crítica e diferenciada, e ao ter a música como referência qualitativa e crítica. Um dos nossos principais objetivos é apresentar a história do Choro, narrando um pouco da história de grandes e renomados compositores e suas belas composições. Um bate-papo musical entre estudantes e os jovens talentosos músicos que encontraram nesta bela arte um significado para suas vidas. 

Músicos ilustres como: Joaquim Antônio da Silva Callado, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gozanga, Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, dentre outros, serão destacados em nosso recital. Após a apresentação, os estudantes interessados poderão interagir ativamente participando da oficina de choro que será ministrado pelos próprios músicos. Neste caso temos um regional clássico com formação instrumental contendo: Flauta transversal (Patrick Mesquita); Acordeon (Jair Dantas); Violão de 7 cordas (Agenor Pereira); Cavaquinho (Alisson Félix) e Pandeiro (Filipe).

Na primeira semana de agosto estaremos divulgando a lista das escolas selecionadas e as datas das apresentações!

Até lá!